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História da Iconografia
Russa
“O ícone
desempenhou um papel essencial na vida litúrgica, teológica e
intelectual da Rússia, comparável ao da música. Até o século XIV a
Ortodoxia da velha Russ (...) privilegiou, desenvolveu, amplificou uma
liturgia que, além de alimento religioso e místico também foi ponto de
partida para a reflexão sobre a beleza espiritual e estética” (J.
Marcadé em 500 Anos de Arte Russa, p. 84)
1. O Batismo da Rússia
O apóstolo Santo André é considerado o
primeiro pregador do cristianismo na Rússia que só foi realmente
convertida séculos mais tarde. Na era do Imperador de Bizâncio, Basílio
I, em torno de 864, houve uma primeira fundação cristã na Rússia. Essa,
entretanto, foi exterminada por Oleg, que assumiu o poder em Kiev em
878. Apesar disso, a Rússia continuou a sofrer influência de Bizâncio, e
certamente existiu uma Igreja em Kiev em 945.
A princesa Olga da Rússia foi batizada
em 975 na Catedral Santa Sofia, em Constantinopla, e começou a construir
igrejas em Kiev, Pskov e Vitebsk. Segundo a lenda, um raio da Santíssima
Trindade teria descido dos céus e indicado o local onde a igreja de
Pskov foi construída. A de Kiev foi consagrada a Santa Sofia, sabedoria
divina. Desde então, a devoção à Mãe de Deus se difundiu pela terra
russa.
Após a morte de Olga, a reação pagã de
seu filho impediu qualquer desenvolvimento do cristianismo e todas as
construções de igrejas foram suspensas, mas diversos ícones foram
conservados. Conta-se que o príncipe Vladimir, neto de Olga, quando
ainda pagão e meditando sobre sua possível conversão, ficou muito
impactado por um ícone do juízo final, e a imagem ajudou-o em sua
decisão. Recebido o batismo, o príncipe Vladimir declarou sua
necessidade de venerar os ícones.
Segundo uma antiga lenda, em 987 o
Príncipe Vladimir de Kiev enviou delegações às distintas regiões do
mundo, tendo em vista examinar as religiões professadas, a fim de
decidir qual era a mais apropriada para seu reino. Quando os delegados
regressaram, recomendaram a Vladimir a fé professada pelos gregos, já
que, assistindo a um ofício religioso na Catedral de Santa Sofia em
Constantinopla,
“nós
não sabíamos se estávamos no céu ou na terra”.
Depois do batismo do príncipe Vladimir, muitos de seus súditos também se
batizaram nas águas do Rio Dnieper, no ano de 988.
Vladimir reinou entre 980-1015 e se
casou com Ana, irmã do Imperador Bizantino. A Ortodoxia tornou-se a
religião do Estado da Rússia e assim permaneceu até 1917. Vladimir
pôs-se a cristianizar seu reino com determinação: padres, relíquias,
vasos sagrados e ícones foram importados; batismos em massa eram feitos
nos rios; Igrejas foram construídas e dízimos eclesiásticos foram
instituídos.
O príncipe Vladimir dava grande
importância à construção de igrejas e trouxe mestres gregos para ensinar
a iconografia. Um aluno desses mestres gregos tornou-se o primeiro
grande iconógrafo russo, o beato Alímpij, do monastério de
Kievo-Pecerskij.
Relata-se que Alimpij possuía uma
profunda experiência e falava da participação angélica no processo de
criação dos ícones. Ele dizia que
“o
ícone surge de uma visão igual à visão angélica. Quando a possibilidade
desta visão se obscurece ou cessa por completo, já não nasce um ícone,
mas um quadro; não mais uma imagem sagrada, mas uma profana.”
O último ícone do venerável Alimpij “brilhava mais que o sol” e quando
seu superior lhe indagou “como e por quem havia pintado esse ícone” ele
lhe respondeu que “o anjo o havia pintado”.
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Grande
Panaghia de Jaroslav |
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Atribui-se a Alimpij o ícone da Virgem
Orante chamada de Grande Panaghia de Jaroslav, também conhecida como a
Mãe de Deus de Blachernitissa. O ícone mostra a Virgem na tipologia orante, com os braços
levantados. Em seu peito, dentro de um medalhão, o menino Jesus. A
Virgem se identifica com a imagem da Igreja: solene, monumental, como a
coluna e fundamento da verdade. O rosto reflete sabedoria e
tranqüilidade profundas. |
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Outro ícone desta época é a anunciação
de Ustyug. A tábua
mede 229x144 cm e o arcanjo Gabriel fala com a Virgem, em cujo vestido
está representado o menino. Toda a composição passa solenidade,
profundidade e introspecção. |
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Anunciação de Ustyug |
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No final do século X até a metade do
século XI, o Estado Russo, com capital em Kiev, tinha um território
enorme, indo de Novgorod ao norte, a nordeste Jaroslav e ao noroeste
Polotsk, no território da atual Bielorússia. Essa situação perdurou até
1054, quando após a morte do príncipe Jaroslav, o Sábio (filho de
Vladimir), o reino foi dividido entre seus três filhos mais velhos. O
filho mais velho Svyatopolk tentou tomar os territórios dos irmãos mais
novos, Boris e Gleb. Obedecendo literalmente aos mandamentos dos
Evangelhos, eles não ofereceram resistência e foram mortos pelos
emissários de Svyatopolk. Apesar de não serem mártires pela fé, mas
vítimas de uma disputa política, os dois irmãos foram canonizados, sendo
os primeiros santos mártires russos.
Não obstante a grande dimensão do
território, a iconografia russa nos séculos XI-XII conservou sua
unidade, graças à importação de ícones bizantinos que se tornaram
modelos para os artistas locais. Outro fator foi o papel unificador de
Kiev, cuja cultura continuava a orientar as terras russas.
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Virgem
de Vladimir |
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Pouco antes de 1132 vieram de
Constantinopla dois ícones da Virgem, como presente do imperador de
Bizâncio ao povo recém convertido ao Cristianismo. Um deles recebeu o
nome de “Virgem de Vladimir” e foi colocado na igreja de Vysgorod, perto de Kiev. Em 1155 o príncipe
Andrei Bogoljubskyj o transferiu para a Catedral da Dormição de
Vladimir, centro de seu principado, onde ficou até o
final de 1395, quando foi solenemente transferido para
Moscou. |
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Durante o translado para Vladimir, o príncipe Bogoljubskyj teve uma visão de Nossa Senhora,
ordenando-o a deixar o ícone em Vladimir, e que construísse uma igreja e
um monastério no local da aparição. O príncipe construiu nesse local um
convento chamado de “Bogoljubovo”, que quer dizer “amado por Deus”, uma
vez que a Mãe de Deus “havia amado este local”. Essa revelação é a
origem do ícone da Virgem Bogoljubskaya. |
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Mãe de
Deus Bogoljubskaya |
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São
Paulo e São Pedro |
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Os ícones mais antigos ainda
conservados, não são provenientes das primeiras igrejas construídas no
sul, mas da Catedral de Santa Sofia em Novgorod, construída entre
1045-50. São dois ícones grandes, que provavelmente ficavam entre as
colunas da iconostase. Em 1561, por ordem de Ivan, o Terrível, foram
transferidos para Moscou. Um deles, representando o Cristo no trono,
ficou na Catedral da Dormição, no Kremlim. O outro, representando os
apóstolos Pedro e Paulo
foi restituído a Novgorod em 1572. A representação de Paulo à direita,
posição usualmente ocupada por Pedro, ressalta o papel particular de
Paulo na difusão da doutrina cristã. Toda a encarnação do ícone passou
por um processo de restauração no século XVI. |
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O ícone de São Jorge provavelmente também é de Novgorod. São Jorge é representado
como um guerreiro, com grandes olhos abertos. Segundo a tipologia do
final da época paleocristã e seguida pela iconografia bizantina, os
grandes olhos abertos simbolizavam a coragem e impavidez do cristão e a
visão da luz não criada, contemplada através dos olhos interiores, do
olhar da alma. |
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São Jorge |
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Foi na Rússia que começou a tradição das
iconostases nas igrejas, pois em Bizâncio os ícones eram principalmente
para orações nas casas particulares ou nas celas dos monges. As
primeiras iconostases eram bem mais baixas e representavam uma espécie
separação do altar. Sobre as balaustradas havia pequenas colunas onde
eram colocados os ícones relativos às festas. As dimensões eram muito
grandes, bem maiores do que os de Bizâncio, o que faz alguns estudiosos
suporem que esses ícones pretendiam substituir a técnica do mosaico.
2. Séculos XII e XIII: A Iconografia
de Novgorod e Pskov
A partir da segunda metade do século XI
os príncipes que governavam os centros autônomos desde a divisão do
estado, começaram a financiar artistas e arquitetos, pois queriam
adornar os seus próprios reinos com igrejas e ícones.
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O rosto de Jesus na iconografia russa nos séculos XI - XII era
austero, de barba arredondada e não separada, cabelos abundantes
que caiam em cachos espessos, sobrancelhas mais planas e grandes
olhos. |
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Santo Keramion |
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A iconografia do Pantocrator teve grande difusão na igreja ortodoxa
russa, pois associava a figura do Cristo criador e regente com conceitos
escatológicos e apocalípticos, suscitando uma disposição de animo séria
e profunda. A imagem do mandylion de Edessa também era conhecida na
Rússia, trazida por peregrinos que haviam ido prostrar-se diante dela em
Constantinopla, para onde havia sido trasladada em 944. O ícone da Santo
Keramion é desta época. |
Entre os séculos XII – XIII havia um
forte intercâmbio entre Novgorod e Bizâncio. Com a invasão
tártaro-mongólica na Rússia, o processo de cristianização foi
tragicamente interrompido. Novgorod não foi destruída, como Kiev e
Vladimir, mas sofreu as conseqüências da invasão: decadência do nível
cultural, ruptura de relações com Bizâncio e decadência econômica geral.
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Esse isolamento forçado de Novgorod
contribuiu para o desenvolvimento de um estilo particular, distante da
tradição bizantina. Enquanto os ícones bizantinos expressavam o ideal de
uma espiritualidade sutilmente elaborada, os ícones novgorodianos
exprimiam a própria experiência interior, não coincidindo com a arte
paleóloga. A composição é mais estática, o desenho é mais simples, o
colorido também, mas sem perder uma profundidade espiritual. Os fundos
vermelhos são muito usados. Um ícone característico da época é o de São
João Clímaco junto com São Jorge e o mártir Blas. |
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São
João Clímaco |
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A Virgem orante de Novgorod, um de seus
maiores tesouros, foi responsável pelo sucesso da batalha contra o
exército de Suzdal, 1170. O arcebispo Ioann, por inspiração, levou o
ícone da virgem para as muralhas da cidade, quando uma flecha acertou o
ícone. Então o povo viu lágrimas escorrerem do rosto da Virgem, e
acolhendo o milagre como um presságio divino, encheram-se de coragem e
derrotaram o inimigo. A partir deste fato começou a se desenvolver uma
escola iconográfica com características mais próprias, assimilando
algumas características nacionais
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Novgorodianos
contra o exército de Suzdal |
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Profeta
Elias |
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Assim como Novgorod, a cidade de Pskov
também ficou isolada durante o período da invasão tártara e desenvolveu
um estilo algo parecido com o de Novgorod. Em Pskov os ícones se
tornaram muito coloridos, usando muito o vermelho vivo, verde escuro,
amarelo e marrom. Os contrastes cromáticos e uma linguagem alegre, quase
folclórica, numa serena simplicidade, pode ser observada no ícone do
profeta Elias com cenas de sua vida. A figura central do profeta está imersa em pensamentos, a
composição é equilibrada, as colinas simétricas e os tons marrons tendem
a contribuir com a atmosfera de meditação. |
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Na iconografia russa do século XIII,
diferentemente da arte bizantina que nesse período experimentava um
renascimento das tradições helênicas, o motivo dominante era um
“bizantinismo”, que determinava uma austeridade, lembrando o período
comneno bizantino.
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Virgem
de Belozersk |
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No ícone da Virgem de Belozersk a tipologia do vulto, a expressão aflita, as linhas delicadas
lembram a Virgem de Vladimir, que é do período comneno. Entretanto, a
simplicidade do desenho, as feições do Cristo como um jovem e não um
menino, os grandes olhos da Virgem, a vivacidade das cores, comunicam ao
ícone uma monumentalidade e beleza muito particulares. |
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3. Séculos XIV e XV: Teófanes, Rublev
e Dionísio.
No final do século XIV e início do XV, a
Rússia experimentava um período de grande impulso espiritual, que se
refletia nas artes. A doutrina de São Gregório Palamas, que havia dado
vida aos antigos ensinamentos do esicasmo e vencido os seus opositores
na metade do século, se reflete em obras pictóricas cheias de
luminosidade, imbuídas da “oração do coração”. Essa oração consiste na
repetição incessante da frase “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus,
tem piedade de mim pecador”, seguindo o ritmo da respiração e fazia
parte das práticas monásticas russas.
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Em 1390 chega a Moscou Teófanes, o
Grego. Conta-se que ele tinha o gênio de artista, o talento de teólogo e
uma experiência de oração que o punha em contato com as próprias imagens
que pintava, tão intensa sua vida espiritual. Os estudiosos de arte
associam a Teófanes e seus discípulos um grupo de ícones entre os quais
está a imagem milagrosa da Virgem de Don. Nesse ícone
predominam as cores marrons, dando grande destaque ao azul celeste, como
se por trás da coberta material do mundo terreno o pintor divisasse o
esplendor da divindade. |
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Virgem de Don |
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Trindade de Rublev |
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Andrei Rublev foi contemporâneo e aluno
de Teófanes, o Grego. Considerado o maior iconógrafo russo que já
existiu, ele se formou numa atmosfera de renascimento espiritual da
Rússia. A primeira referência segura sobre Rublev é em 1405, ano em que
trabalhou com Teófanes na pintura da catedral da Anunciação do Kremlim.
Em torno de 1415, Rublev e seu amigo Daniil Ciornij pintaram na Catedral
da Trindade, na Laura de São Sérgio. Para essa catedral Rublev pintou
seu ícone mais famoso, a Santíssima Trindade. |
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Em 1918, em Zvenigorod,
foram encontrados três ícones de uma fila de oração: o
Cristo Redentor, São Paulo e São Miguel Arcanjo. O
Cristo é a imagem central; São Paulo inclina-se um pouco para
esquerda e o arcanjo para
a direita. A perfeição artística desses ícones é tão elevada que se
atribuiu a autoria a Rublev, pois nenhum outro iconógrafo contemporâneo
a ele alcançou tal perfeição artística. Esses ícones são conhecidos como
a “fila da iconostase de Svenigorod”. Tanto Rublev quanto seu amigo
Daniil morreram em 1430. |
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Arcanjo
Miguel |
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O Cristo |
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São
Paulo de Rublev |
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Em torno da metade do século XV há uma
mudança na iconografia de Moscou. As figuras tornam-se mais tênues,
quase incorpóreas, com a estrutura mais estilizada. Após a queda de
Constantinopla, em 1453, a iconografia russa torna-se a guardiã da
iconografia bizantina, conservando principalmente seu espírito.
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O artista mais representativo desta época é Dionísio,
cujas figuras alongadas representam o mundo ideal. Suas
obras não indicam a tragédia, não contém elementos
dramáticos. Por exemplo, a Crucificação,
com cores luminosas e grande harmonia e beleza de desenho, nos leva
antes ao triunfo da vida sobre a morte. |
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Crucificação (Dionísio) |
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Última
Ceia (Dionísio) |
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Dionísio usa um colorido muito suave,
com muito branco, e predominância de cores como turquesa, rosa, verde
pistache e ouro. Há uma aspiração de elevar-se das coisas terrenas, uma
beleza contida. Seu desenho é ponderado e consciente, mas falta aquela
espontaneidade e leveza dos ícones de Rublev ou de Teófanes o Grego.
Os ícones de cenas da vida de Jesus, a
partir de Dionísio, adquirem o caráter próprio de um relato atento e
cheio de detalhes, como podemos observar no ícone da Última Ceia. |
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Entretanto, já nesse período se verifica
o início da ruptura que ocorrerá com maior força na pintura sacra do
século XVI: a contemplação orante cede espaço à admiração estética. A
consciência mística e simbólica no uso de cores e linhas é pouco a pouco
substituída pelo simbolismo decorativo.
4. Séculos XVI
O século XVI foi uma época de mudanças
na pintura sacra russa. Passou-se a dar grande importância ao
significado e valor das antigas tradições russas, e a demanda por ícones
cresceu rapidamente. Havia ícones nas casas, lugares de oração, igrejas,
monastérios, comércios, e até mesmo nas ruas, sobre os portões de
entrada dos pátios e sobre cada porta. Assim, o ícone saiu dos templos e
monastérios para difundir-se entre o povo, tornando-se uma
característica da piedade e devoção russa. Ao mesmo tempo, tornou-se um
elemento de catequese para o povo.
Um elemento que contribuiu para esse
desenvolvimento da pintura sacra foi a organização dos trabalhadores
artesanais do czar e do metropolita no Kremlin de Moscou, onde se
reuniram as melhores forças artísticas. O aumento de números dos ícones
foi tão grande que as autoridades eclesiásticas começaram a se
preocupar, pois isso poderia facilmente levar a uma decadência do nível
espiritual e artístico dos ícones.
No Concílio de 1551, conhecido com “dos
cem capítulos”, se proibiu de pintar ícones a todo aquele que o fizesse
“sem escola, por iniciativa própria, sem modelos, comercializando
esses ícones por preços baratos” Era necessário aprender “de bons
mestres, e apenas quem tiver sido dotado por Deus poderia pintar sua
imagem e semelhança; e não quem não tenha dons artísticos, para não
vilipendiar o nome de Deus com suas obras.”
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Nos anos 1520 e 30, a pintura ainda se
inspirava em Dionísio, mas as cores já haviam perdido a leveza
harmoniosa, tornando-se mais pesadas e decorativas. Há uma volta aos
temas biográficos, como uma resposta do povo que queria entender sua
própria história eclesiástica. As figuras com os quadros da vida do
santo são dinâmicas, enquanto que as figuras centrais se apresentam como
que paradas no tempo, no eterno, como intercessores celestiais e
protetores do povo. Há também a aparição de ícones de caráter
didático-moral, como a “Escada Celeste”. |
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Escada
Celeste |
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Em 1547, início do reinado de Ivan IV,
ocorreu um grande incêndio em Moscou, que destruiu inúmeras igrejas e
tudo que nelas havia. O jovem czar então ordenou que se trouxessem para
a capital, ícones de várias cidades, como Novgorod, Smolensk, Zvenigorod
e outras.
Também foram solicitados iconógrafos de
Novgorod e Pskov para Moscou. Os mestres iconógrafos foram dirigidos por
um conselheiro próximo ao czar, um padre chamado Silvestr. Esse que
mandou pintar ícones seguindo um programa determinado: “A Santa Trindade
Vivificadora nas ações”, “Creio em Deus Todo Poderoso”, “Louvemos ao
Senhor dos Céus”, “Sofia Sabedoria Divina” e o ícone mariano “É Justo em
Verdade”. A temática religiosa era tão complexa que requeria soluções de
composição bastante complicadas. Também foram pintados ícones como “O
Juízo Universal”, “Venham, povos, venerar ao Deus Trino”, etc.
Esses ícones suscitaram protestos do
diácono Ivan Viskovatij, que entrevia neles uma abolição das antigas
tradições eclesiásticas e não aceitava novas interpretações, mas apenas
a cópia dos antigos modelos.. Viskovatij foi derrotado no Concílio de
1554 que, entretanto, reconheceu que algumas inovações iconográficas não
eram compatíveis com a tradição, “os iconógrafos em
certos casos não se saíram bem ao pintar, não seguiram os exemplos
gregos, mas se guiaram por suas próprias irracionalidades e, portanto,
mandamos que todo o ícone fosse refeito.”
A consciência religiosa encontrava-se
num dilema: Podia-se desenvolver o pensamento iconográfico ou devia-se
apenas copiar os exemplos antigos? Até que ponto as inovações seriam
admitidas? Eram perguntas sem respostas claras.
O fato é que a tendência teológica nos
temas iconográficos com composições elaboradas, fizeram com que os
ícones passassem do mundo da contemplação para o mundo da ilustração,
requerendo um esforço intelectual para decifrá-los.
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Virgem
de Kazan |
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O século XVI também está marcado pela
manifestação de ícones milagrosos da Virgem. Um dos maiores foi o
redescobrimento em 1579 do ícone de Nossa Senhora de Kazan, que desde então se tornou um dos ícones mais venerados na
Rússia. Em 1594, momento em que Moscou estava sendo invadida, uma cópia
do ícone foi levada ao campo de batalha e os inimigos derrotados, graças
à intercessão da Santíssima Mãe de Deus. A lembrança desse acontecimento
é festejada em 22 de outubro, como uma segunda festa em honra à Virgem
de Kazan. |
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Em agosto de 2004 o Papa João Paulo II
devolveu uma réplica do século 17 ou 18 do ícone da Virgem de Kazan,
para o patriarcado de Moscou. O ícone havia sumido em 1918, com a
revolução bolchevista, e em 1993 foi redescoberto e doado ao Papa, que o
manteve em seus aposentos particulares.
5. Século XVII
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Morto Ivan, o terrível, subiu ao trono o czar Fiodor, homem de grande
piedade pessoal, que estabelece o patriarcado de Moscou em 1589. Havia
uma grande crise na vida social e do estado, e nas artes, uma busca por
antigas tradições. As escolas mais importantes são a de Godunov, nos
anos 80-90, de pintores próximos à corte de Boris Godunov. È desta época
a Virgem de Tolga repintada a partir de um modelo do século 13, mas
agora com cenas dos milagres do ícone e do monastério de Jaroslav à
volta. |
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Virgem de Tolga |
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Outra escola importante foi a dos
Stroganov, nome de uma família de comerciantes mecenas das artes. Os
ícones desta escola têm uma característica comum: são de dimensões
relativamente pequenas, para uso doméstico. Também nessa escola se
desenvolveram as miniaturas, que exigiam grande destreza técnica e
delicadeza. A escola Stroganov representa uma ruptura com a tradição
bizantina e uma etapa numa busca de um estilo nacional russo.
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Virgem
Kikiotissa |
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Por último, a escola do Palácio de Armas
da corte imperial em Moscou, sob a direção de Simon Ushakov, que retoma
os temas mais venerados da antiga Rússia e do Oriente cristão, como a
Virgem Eleus-Kiksk ou Kikiotissa ou ainda parafraseando a célebre Trindade de Rublev.
Nesse ícone podemos observar bem as tendências desta escola:
os vultos são arredondados, há um jogo de claro-escuro acentuado, os
edifícios são copiados de estampas ocidentais. Entretanto, não é a arte
realista ocidental, pois a composição é a tradicional e a luminosidade
não deriva de uma fonte de luz real. São quase retratos, mas que ainda
recordam os ícones. Este é um estilo que muitos iconógrafos russos ainda
seguem atualmente. |
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Nesse século, a Rússia começa a olhar
com interesse para a arte do Ocidente, na qual vê os sinais de um
progresso maior. Por outro lado, os artistas ocidentais começam a olhar
para a Rússia como um país em desenvolvimento, onde há oportunidades de
trabalho e fortuna. |
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Trindade de Ushakov |
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6. Século XVIII: Pedro o Grande e a Ocidentalização da Arte Russa
A decisão de ocidentalizar a arte russa
veio de Pedro, o Grande, entusiasta da civilização ocidental. Ele
mandava artistas russos estudarem na Europa e trouxe artistas europeus
para a Rússia, para a construção de sua nova capital, São Petersburgo. A
iconografia absorve muitos elementos do mundo latino, como a arquitetura
clássica, com colunas trabalhadas e pórticos, e paisagens elaboradas
passam a substituir os fundos simbólicos em ouro ou outra cor.
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Trindade, Adoração e Batismo |
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Um exemplo interessante são três
composições, que aparecem como parte das festas, com a Trindade, a
Adoração dos Magos e o Batismo: embora conservando a iconografia
tradicional, são evidentes os elementos naturalísticos e narrativos da
arte ocidental.
A arte sacra passou a ocupar um lugar
secundário, pois os profissionais preferiam dedicar-se a gêneros que
lhes dessem maior liberdade de criação e maior fusão com a cultura da
Europa ocidental. Com o declínio do interesse pela pintura religiosa,
diminui o uso da têmpera a ovo tradicional e passam a usar as tintas a
base de óleo. Como conseqüência, difunde-se também o uso de coberturas
metálicas, ou
risas,
que testemunham a tendência ao decorativismo, do barroco ocidental ao
invés da linguagem simbólica da iconografia. Por outro lado, a devoção
às imagens sacras como lugar da Presença Divina nunca perdeu espaço na
piedade russa. |
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Referências
Ivanov,
V.. El Gran Libro de los Iconos Rusos Ed. Paulinas,
Popova,
Olga, et al. Ícone. Mondadori, Milano, 2003.
http://www.ecclesia.com.br/a_igreja_ortodoxa/arquid_russa/russia.htm
Marcadé,
J. “Ícone e Vanguarda na Rússia, as duas maiores faces da arte
universal” em “500 Anos de Arte Russa”, Museu Estatal russo e
BrasilConnects, 2002 |